Centro Cultural de Lagos recebeu Jornada Comunitária de Literacia em Saúde
Num evento acompanhado por cerca de duas centenas de participantes, que contou com o apoio do município de Lagos, o Hospital Terras do Infante (HTI) e a ULS Algarve “abriram as portas” à comunidade para dar a conhecer as respostas existentes, reforçar a ligação entre profissionais, entidades parceiras e utentes, aumentar a literacia em saúde e incrementar a confiança dos cidadãos na qualidade dos serviços prestados no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
A 1.ª edição da Jornada Comunitária HTI, cujos trabalhos preencheram o passado dia 29 de setembro, foi dedicada à comunidade, à promoção da saúde e à literacia em saúde. Ao longo da sessão, organizada por várias mesas e painéis constituídos por profissionais da ULS Algarve e por técnicos de entidades cooperantes, foram abordados temas essenciais para uma melhor compreensão dos cuidados de saúde e acompanhamento dos utentes e famílias, abordando questões como: a literacia em saúde no contexto de Internamento; na vertente da Enfermagem, a importância do acolhimento, do envolvimento familiar e os requisitos para uma alta segura; ao nível da Ação Social, os apoios existentes, a rede comunitária de suporte e a continuidade de cuidados; e, por fim, na área da Medicina Física e Reabilitação, a adaptação funcional e o apoio familiar. Em simultâneo, um conjunto de workshops paralelos complementaram as intervenções científicas com informações úteis e demonstrativas das atividades e meios envolvidos em respostas e cuidados específicos.
Na qualidade de anfitrião do evento, o presidente da Câmara Municipal de Lagos mostrou-se orgulhoso pelo trabalho desenvolvido no Hospital Terras do Infante, fazendo com que este seja considerado de primeira linha em algumas especialidades e na prestação de serviços diferenciados, exaltando, por isso, todos os profissionais e responsáveis a continuar a trabalhar e a investir para que o HTI não seja periférico perante a região. O autarca aproveitou a oportunidade para partilhar informações sobre as ações desenvolvidas pelo município, em articulação com o Conselho de Administração da ULS Algarve, para melhorar as condições desta unidade hospitalar. Hugo Pereira deixou também uma palavra de reconhecimento à Comissão Organizadora do evento, na pessoa de João Estevens (Coordenador da Unidade Funcional de Medicina de Lagos) e de Ludmila Pierdevara (Enfermeira Gestora da Medicina Lagos - HTI), bem como da vasta equipa de profissionais envolvidos na preparação desta Jornada Comunitária, pelo facto de vestirem com dedicação a camisola do SNS.
Na sessão de abertura, Ana Paula Fidalgo (Diretora Clínica da Área Hospitalar da ULS Algarve) relembrou que muitos cidadãos continuam a recorrer aos Serviços de Urgência por desconhecimento dos Cuidados de Saúde Primários, sublinhando que a capacidade instalada ao nível dos cuidados hospitalares deve responder aos dentes agudos. A falta de resposta na comunidade para os problemas sociais foi outro dos constrangimentos identificados, sublinhando, por isso, a necessidade de, em articulação com as entidades parceiras, chegar mais próximo das pessoas. Captar e reter os profissionais de saúde foi apontado como outro dos grandes desafios que se coloca ao SNS.
Em representação do Conselho de Administração da ULS Algarve, a vogal Lígia Pires, deixou uma palavra de apreço pela iniciativa, sublinhando que “um hospital se define também pela forma como se aproxima da comunidade e não apenas pelos cuidados de saúde prestados”, o que reforça a necessidade de se investir, cada vez mais, na literacia em saúde, designadamente com sessões preparadas para responder às preocupações da comunidade.
A sessão de abertura contou, ainda, com a intervenção de Nuno Vieira, diretor do Serviço de Medicina de Portimão e Lagos.
Na introdução ao painel “Literacia em Saúde no Contexto de Internamento”, João Estevens citou afirmações recentemente feitas por quem tem estudado os sistemas de saúde, segundo as quais “o SNS que temos em Portugal é, de longe, o melhor de todo o mundo”, juntando, a isso, alguns dados estatísticos sobre a atividade hospitalar produzida no HTI. A aposta na literacia pode ajudar a reduzir a taxa de reinternamentos, foi a tese defendida por Ala Manolachi (médica do Serviço de Medicina de Lagos). Uma posição secundada por Vanessa Vicente (igualmente médica do Serviço de Medicina de Lagos), para quem “uma boa comunicação não substitui um bom tratamento, mas faz parte dele”. Por sua vez, Paula Braga Marques (Assistente Social no HTI) aludiu aos desafios da realidade social que estamos a viver, com o aumento da longevidade da população, distinguindo entre aquilo que é uma alta clínica e a alta social hospitalar e explicando todo o acompanhamento social que é feito a partir do momento em que o utente dá entrada em internamento, assim como a importância do papel da família e os apoios disponíveis na comunidade.
O segundo painel, apresentado pelas enfermeiras Inês Ventura, Soraia Afonso e Cláudia Porteiro, teve como objetivos dar a conhecer o Internamento de Medicina de Lagos, o foco que tem sido colocado na humanização dos cuidados no internamento hospitalar, designadamente na fase mais sensível do fim de vida, e a importância da confiança no Serviço de Urgência Básico, o primeiro nível de resposta nos cuidados hospitalares.
Sobre os apoios e respostas existentes na rede comunitária, que são decisivos para a continuidade de cuidados, tratou o painel moderado por Paulo Niza (Santa Casa da Misericórdia de Lagos - SCML), em que intervieram Sofia Furtado e Rita Matos (técnicas superiores da Câmara Municipal e dinamizadoras dos projetos Saúde em Movimento, GAPI - Gabinete de Apoio ao Idoso e Conselho Municipal Sénior), mostrando o trabalho que tem estado a ser promovido pelo município no sentido de capacitar a comunidade a lidar com o envelhecimento, que se quer ativo e menos dependente. António Duarte (assistente social do Centro de Saúde de Lagos), Ana Guerreiro (diretora técnica do Serviço de Apoio domiciliário da SCML), Márcio Regino (comandante dos Bombeiros Voluntários de Lagos e responsável pelo Serviço Municipal de Proteção Civil e Defesa da Floresta) e Olívia Gouveia (presidente da Liga dos Amigos do Hospital de Lagos) passaram em revista as respostas e o trabalho que, cada um na sua área, promove para garantir o acesso aos cuidados de saúde primários, lidar com os desafios e constrangimentos do apoio domiciliário, que serve pessoas cada vez mais isoladas, promover a saúde pública e o bem-estar individual e prestar apoio, por via do voluntariado, ao doente em internamento, incluindo o acesso a materiais e ajudas técnicas, imprescindíveis após a alta hospitalar. Uma conjugação de esforços que resulta em humanização dos cuidados de saúde, maior proximidade e dignidade para o doente.
O último painel desta 1.ª Jornada Comunitária do HTI, que contou com a participação da fisioterapeuta Raquel Marreiros dos Santos, da terapeuta ocupacional Nícia Cavaca e da terapeuta da fala Catarina Duarte, foi dedicado à Medicina Física e Reabilitação, colocando a tónica no papel da Fisioterapia na doença crónica, nas respostas existentes ao nível da Terapia Ocupacional, incluindo a preocupação com o garantir a autonomia dos utentes no respetivo domicílio, e na importância do trabalho desenvolvido no âmbito da Terapia da Fala, chave no processo de segurança e capacitação do utente. A mesa, cuja moderação esteve a cargo dos médicos de Medicina Física e Reabilitação, Rodrigo Quesado e Daniel Rego, destacou, igualmente, o trabalho feito no Centro Especializado e Integrado de Reabilitação do Doente de AVC que funciona no Hospital Terras do Infante, o qual é o maior internamento de Medicina Física e de Reabilitação a nível hospitalar em número de camas. Algo importante, tendo em conta que o AVC é a 3.ª maior causa de incapacidade no mundo.
Em jeito de síntese, Vitor Mota (Administrador-Delegado do Hospital de Portimão e do Hospital Terras do Infante), encerrou os trabalhos afirmando que o SNS, a maior conquista do 25 de Abril, está a passar por uma crise e corre riscos sérios de definhar, mas, apesar de todos os problemas, continua a ser um dos melhores do mundo. Aflorando as dificuldades inerentes à gestão da ULS Algarve, “uma casa que tem mais de 100 portas abertas ao público”, Vitor Mota manifestou-se esperançado com a existência de condições para que o SNS volte a crescer no Algarve.

