No Bairro 25 de Abril cruzou-se a história da Revolução dos Cravos com a Revolução dos Tijolos
A atividade «E temos o povo…», realizada no final de setembro, na Meia Praia, reviveu o 25 de Abril, recordou o projeto SAAL e debateu os desafios da Habitação. A iniciativa, promovida pela Comissão (nacional) Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, o Arquivo Municipal de Lisboa e a RTP Antena 2, teve como curadores de projeto os jornalistas André Cunha e Isabel Meira, tendo sido acolhida e apoiada pelo município, no âmbito das comemorações “Lagos, Liberdade e Democracia” que se estendem até ao final de 2026, assinalando os 50 anos da Constituição da República Portuguesa e o 50.º aniversário das Primeiras Eleições para o Poder Local.
A Meia Praia foi a paragem algarvia da digressão nacional do projeto "... e temos o povo..." - todos os sons da primeira montagem radiofónica do 25 de Abril, uma iniciativa que trouxe até Lagos este documento radiofónico único, proporcionando um invulgar exercício comunitário de escuta coletiva.
Esta sessão inédita, realizada no dia 26 de setembro, no espaço público entre as casas do Bairro 25 de Abril, contou com a participação especial do ilustrador António Jorge Gonçalves, que, a partir de fotografias e outras imagens de arquivo, desenhou ao vivo os desenhos projetados nas paredes, cruzando, assim, a memória do projeto SAAL com os sons históricos gravados por Pedro Laranjeira (1945-2015), Paulo Coelho e Adelino Gomes, permitindo reviver os acontecimentos ocorridos no dia 25 de Abril de 1974, do Terreiro do Paço ao Largo do Carmo, mas também evocar aquela que é uma das maiores promessas de Abril, consagrada na Constituição da República Portuguesa: o direito à Habitação.
A Habitação foi, precisamente, o tema que juntou em conversa, ao final da tarde e antes da sessão, José Bartolomeu (presidente da Associação de Moradores do Bairro 25 de Abril), Manuel Dias (que foi coordenador da Equipa Técnica Local do SAAL Algarve), Miguel Reimão Costa (arquiteto e investigador) e Hugo Pereira (presidente da Câmara Municipal de Lagos). Recordando as origens do projeto SAAL e o impacto que o mesmo teve junto das comunidades – ao alavancar a construção de áreas habitacionais com o envolvimento e participação ativa da população -, falou-se, igualmente, sobre a situação atual do Bairro 25 de Abril e os desafios da habitação no presente, uma preocupação premente no ano em que se assinalam os 50 anos da Constituição da República Portuguesa e os 50 anos das primeiras eleições autárquicas livres.
O testemunho vivo do 25 de Abril em Lagos fez-se ouvir pela voz do Coronel José Glória Alves, que recordou os momentos ao comando do Centro de Instrução de Condução Auto 5 (CICA 5), as forças então sedeadas na cidade lacobrigense que tomaram o emissor e retransmissores da Fóia, controlando as comunicações da GNR, da Guarda Fiscal, da PIDE e da Legião Portuguesa.
Miguel Veloso, filho do Arq. José Veloso, nome incontornável do projeto SAAL e dos bairros SAAL da Meia Praia, recordou o envolvimento do pai imediatamente após a publicação do despacho governamental fundador do SAAL - da autoria do Secretário de Estado, o Arq.º Nuno Portas – e a sua luta para que as populações marginalizadas tivessem acesso a uma habitação digna, incentivando à criação de associações de moradores. Terão sido as mulheres, mais castigadas pela dureza do trabalho doméstico feito em condições habitacionais precárias, as primeiras a aderir à ideia.
Quem se tem dedicado a investigar o projeto SAAL é o Arq. Miguel Reimão Costa, que explicou nesta sessão a especificidade do SAAL no Algarve - onde o programa permitiu que a definição e organização dos bairros fosse feita com a intervenção das próprias comunidades -, assim como o modelo de financiamento que lhe esteve subjacente e a forma como foi concretizado, através de autoconstrução.
Por seu turno, Manuel Dias (coordenador da Equipa Técnica Local do SAAL Algarve), recordou que os bairros SAAL da Meia Praia e, em concreto a Associação de Moradores do Bairro 25 de Abril – a primeira a começar a construir -, foram um exemplo inspirador, já que aqui vinham, como que em visita de estudo, os membros de outros núcleos e associações perceber como é que essa utopia poderia tornar-se realidade: “- Aqui começou a construir-se o futuro. A habitação como cidade e como futuro”.
Quem conhece bem a vida no Bairro 25 de Abril é José Bartolomeu, o presidente da Associação de Moradores, que não perdeu a oportunidade para manifestar, uma vez mais, as reivindicações desta comunidade de aproximadamente 400 pessoas, que se mobilizam em torno da vontade e necessidade de regularizar o bairro e ver as suas condições habitacionais melhoradas, designadamente ao nível do espaço público.
A resposta veio com a intervenção do presidente da Câmara Municipal de Lagos, Hugo Pereira, que explicou, sumariamente, as vicissitudes de um processo administrativo com décadas, reconhecendo, por um lado, um acompanhamento insuficiente e, por outro lado, as condicionantes impostas pelos instrumentos de ordenamento do território, que têm inviabilizado a legalização das habitações na localização em que as mesmas se encontram. O autarca deixou, contudo, um sinal de esperança, dado que para o município a área do Bairro 25 de Abril não será para renaturalizar, como consta nos planos, mas sim para manter e legalizar. O assunto é caro aos residentes, que também se manifestaram, reclamando melhores condições, assim como aos autarcas que nunca deixaram de acreditar na possibilidade de concretizar os anseios da população.
À noite “o palco” foi para os registos sonoros do 25 de Abril – atentamente escutados por miúdos e graúdos - e para o desenho ao vivo de António Jorge Gonçalves, que deu vida e cor às paredes, contando uma história para alguns vivida na primeira pessoa, como foi o caso do jornalista Adelino Gomes, presente nesta sessão, e de Francisco Fanhais, que cantou à capela o tema “Utopia” de Zeca Afonso, uma ode a uma cidade sem muros nem ameias, à igualdade plena e à esperança.
O evento não ficaria completo sem “Os índios da Meia Praia”, tocado a partir do disco de vinil e da aparelhagem sonora de uma das primeiras moradoras do bairro. O tema relata a história desta comunidade piscatória, oriunda de Monte Gordo, que em Lagos se fixou no então designado Bairro do Apeadeiro, aqui protagonizando um dos marcos dessa conquista de Abril: o direito à habitação. Um momento que certamente ficará na memória dos últimos moradores-construtores dos dias iniciais "ali mesmo ao pé de Lagos", dos seus filhos e netos, da comunidade lacobrigense e de todos os que participaram no evento.

