Lagos debateu os riscos urbanos e os desafios da prevenção e da resiliência
Quase em vésperas de se assinalar uma das maiores, se não mesmo a maior catástrofe natural que alguma vez assolou Portugal - o terramoto de 1 de novembro de 1755 e o tsunami que se lhe seguiu, destruindo a capital e afetando com igual gravidade a cidade de Lagos -, a cidade algarvia acolheu o Encontro sobre Riscos Urbanos, uma iniciativa da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico, do Centro Europeu de Riscos Urbanos e da Câmara Municipal lacobrigense, juntando especialistas, técnicos e decisores políticos em torno de uma problemática cada vez mais na ordem do dia.
As alterações climáticas, o risco de tempestades e inundações, as lições tiradas da destruição provocada pela tempestade “Kristin” e o processo de recuperação dos territórios afetados, o risco de incêndios nos centros históricos e no interface urbano-rural, assim como com o risco sísmico e de tsunami, foram temas em análise, num encontro que reforçou a necessidade de fazer com que o conhecimento científico apoie cada vez mais a decisão política, de se fomentar uma cultura de prevenção, com mais planeamento, informação, sensibilização e envolvimento das comunidades, sem nunca deixar de investir na capacitação dos agentes de proteção civil, com vista à mitigação dos danos provocados pelos fenómenos, naturais e outros, que não é possível evitar.
Hugo Pereira, na dupla qualidade de presidente da Câmara e de presidente da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico (APMCH), abriu os trabalhos manifestando a sua convicção de estarmos «hoje todos muito mais sensibilizados para os riscos urbanos do que no passado. Depois da tempestade Kristin, estamos todos mais conscientes de que situações desta natureza também nos podem atingir». O autarca reiterou a sua confiança no poder da sensibilização «para que toda a população perceba que não estamos a salvo de nada», considerando fundamental que «todos aqueles que têm responsabilidades possam monitorizar, preparar-se melhor e reforçar a capacidade de resiliência, de forma a podermos coletivamente enfrentar situações como estas».
A presidente do Centro Europeu de Riscos Urbanos (CERU), Mónica Amaral Ferreira, recordou a especial ligação a Lagos através da memória do Prof. Luís Mendes Victor, que presidiu ao CERU e trouxe este organismo para Portugal, tendo desenvolvido em Lagos assinalável trabalho sobre o risco sísmico no centro histórico. Agradeceu, por isso, ao município por ter acolhido o evento, assim como ao Arq.º Frederico Paula e ao Serviço Municipal de Proteção Civil que colaboraram ativamente na organização do Encontro. Na sua intervenção, Mónica Ferreira, recordou que «o território português está cada vez mais exposto a riscos complexos, interligados, resultantes de fenómenos naturais, de vulnerabilidades físicas, do ambiente construído, assim como das vulnerabilidades sociais, económicas e territoriais que fomos acumulando ao longo dos anos. O ano 2026 tem sido especialmente exigente com o impacto da tempestade “Kristin”, mas não podemos esquecer que o território também está sujeito a deslizamentos, sismos, tsunamis, portanto, toda uma série de fenómenos que são distintos, mas que podem ter impacto muito significativo a nível social e económico, nas instituições e funcionamento das cidades e dos nossos centros históricos e meios urbanos. A presidente do CERU considera, por isso, essencial repensar a forma como planeamos, projetamos e gerimos o território da parte do urbanismo, o setor da construção e a proteção civil, mas também urgente refletir sobre os impactos em cascata/dominó, os custos dos desastres, os processos de recuperação e resiliência e a importância da prevenção: «Para prevenir temos de conhecer os riscos a que estamos expostos, identificar as vulnerabilidades e tomar decisões informadas a todos os níveis (do planeamento urbanístico à proteção civil) para conseguirmos planear as cidades, proteger os edifícios e preparar melhor as comunidades. É precisamente este o propósito dos encontros sobre riscos urbanos: promover o debate e reflexão sobre a gestão e a prevenção, aproximando a academia das diferentes entidades que têm responsabilidade sobre estas matérias».
Em representação do Comandante Regional do Algarve da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, Abel Gomes sublinhou a evolução crescente dos eventos naturais que afetam também, cada vez mais, as áreas urbanas – onde existe maior concentração de pessoas e infraestruturas críticas - e com os quais é preciso viver, obrigando a um trabalho acrescido ao nível da antecipação e preparação. Não desvalorizando o papel da Proteção Civil, que – na sua opinião - é o serviço mais abrangente que existe para a proteção das populações, o 2.º comandante regional do Algarve da ANEPC lembrou, ainda, que a resiliência começa dentro de casa, carecendo do contributo individual de todos os cidadãos.
«Tirar lições da catástrofe e da forma como lidámos com ela»
O primeiro painel, dedicado ao tema “Risco de tempestades e inundações” foi moderado por Ricardo Duarte, professor na Universidade de Leiria e Oeste, que participou no levantamento georreferenciado dos danos da tempestade “Kristin” na região centro. Para este especialista em Engenharia de Estruturas «uma coisa é estarmos a assistir a umas fotografias em sala de aula sobre o assunto, outra é estarmos no território e no “olho do furacão”. A madrugada de 28 de janeiro, que fica na memória coletiva pela passagem da depressão “Kristin”, e por todo o comboio de tempestades que lhe sucedeu, com ventos entre os 176 km e os 208 km/hora e chuvas persistentes, provocou danos muitos graves no património, em edifícios e vias, os quais demoram a ser reparados. Ricardo Duarte enquadrou, por isso, este evento na categoria de grandes eventos catastróficos, considerando as tempestades de 2026 como o evento natural mais catastrófico depois do sismo de 1755, ao ter afetado as redes elétricas, comunicações, a rede viária, o abastecimento de água, habitações, escolas e outros edifícios públicos, o Pinhal de Leiria e muitas indústrias. O académico chamou, ainda a atenção para a existência de indústrias equipadas com milhões de euros em máquinas, em que os edifícios não acompanham, em termos de segurança, o valor patrimonial que está lá dentro. Neste teatro de operações, a avaliação técnica terá sido determinante para verificar, relativamente a infraestruturas como viadutos, por exemplo, a existência ou não de risco para a circulação, determinando ou evitando o seu encerramento. Apontando para 5 mil milhões de euros a estimativa do prejuízo apenas no distrito de Leiria, Ricardo Duarte acrescentou que serão necessários quatro anos para recuperar/reparar tudo. A catástrofe permitiu identificar as vulnerabilidades existentes, o impacto negativo superior sentido nas construções ilegais e nos imóveis reabilitados sem o cumprimento das normas, a falta de controlo e fiscalização da construção, nomeadamente no dimensionamento e instalação de elementos construtivos secundários como chaminés e platibandas, a importância das bacias de retenção, que, em Leiria, evitaram cheias maiores, a importância das autarquias como primeira linha de apoio para garantir à população a satisfação das necessidades básicas, assim como da formação e educação.
Paulo Fernandes, coordenador da Estrutura de Missão para a recuperação das zonas afetadas pela tempestade “Kristin”, abordou, neste primeiro painel, o tema “Cultura de risco - papel das comunidades e instituições”, confessando, desde logo, o quão difícil é quantificar danos, dado que não é fácil dispor de metodologias, formatos ou dados que facilitem, em tempo muito rápido, definir e medir com rigor que danos por tipologia existem, da mesma forma que também não existem modelos de resposta rápidos. Secundando o que já havia sido dito pelos oradores anteriores, para Paulo Fernandes «nunca na nossa história mais contemporânea, desde o terramoto de 1755, tivemos algo tão transversal do ponto de vista dos danos», apontando como inéditos a dimensão do prejuízo, estimado em mais de 5 mil milhões de euros, e a diversidade dos danos. O coordenador da Estrutura de Missão partilhou alguns dados bem elucidativos quanto à gravidade da situação descrita, designadamente ao nível: da mobilidade, onde ainda existem 16 estradas nacionais com troços interrompidos, das mais de 300 estradas nacionais que chegaram a estar interrompidas; dos caminhos florestais (com mais de 20 mil quilómetros de caminhos florestais limpos); do parque habitacional, com 220 mil casas afetadas, das quais só 50% têm seguro; e das empresas, das quais 2/3 estão seguradas quanto à sua infraestrutura, mas apenas 7,5 % do total têm assegurada a parte da produção, vulnerabilidade que coloca em risco a respetiva viabilidade económica. «Nas casas, para se perceber a dimensão dos danos e as respostas necessárias, foi necessário construir modelos de georreferenciação e espacialização de políticas, quer para o devido acompanhamento na fase dos apoios, mas também na fase subsequente da vertente inspetiva e fiscalização». Do universo de casas afetadas, muitas já terão recebido apoio por parte das seguradoras e outras por parte do Estado, somando quase 200 mil, sendo que o valor médio não chega aos 5 mil euros por casa, aplicado sobretudo em coberturas, assim como em caves e pisos térreos, no caso das que foram afetadas pelas cheias, o que – segundo este responsável – «também nos obriga a pensar não apenas pelo prisma da severidade, mas pela tipologia do dano» que, se não for resolvido, acaba por gerar outros problemas e prejuízos.
Apesar dos quatro mil milhões de euros que os apoios já atingem, Paulo Fernandes afirmou que «não basta distribuir dinheiro», trazendo à análise questões como: as dificuldades inerentes à necessidade de cruzamento de dados, entre as seguradoras e a CCDR, dado que não pode haver duplicação de apoios; a equidade e transparência na atribuição dos apoios, que têm de chegar o mais depressa possível aos executantes e aos beneficiários finais; a necessidade de garantir que a resposta de socorro seja equilibrada em todo o território nacional, não ficando dependente da maior ou menor capacidade financeira, capacidade técnica ou sensibilidade política dos executivos municipais; a importância de se apostar mais na escala local e ter abordagens diferenciadas quanto à capacitação dos vários agentes, nomeadamente as juntas de freguesia; a necessidade de alterar o quadro legislativo e regulatório de determinados setores de atividade, dando como exemplo os postos de abastecimento de combustível, para que não sejam tão afetados pelas falhas de energia e para que se clarifique uma hierarquia de utilização prioritária, em caso de escassez; e a própria localização das empresas afetadas, das quais mais de metade estavam situadas fora de parques empresariais, a carecer de ser repensada. Em forma de conclusão, Paulo Fernandes deixou uma crítica à célebre frase “Pensar global, agir local” que tem norteado muitas políticas públicas, considerando-a absurda nos dias de hoje. «É necessário pensar e agir em todos os níveis», apostando em “comunidades smart”, dado que «é na inteligência da comunidade que estarão as respostas mais colaborativas».
Quem também viveu esta experiência dramática foi Paulo Vicente, presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, que apresentou a comunicação «Da gestão da crise à construção da resiliência – lições da tempestade “Kristin” para a construção de um território mais preparado, sustentável e seguro». Assumindo-se como um testemunho daquilo que viveram no território e na comunidade na sequência da tempestade, «um acontecimento que pôs à prova a capacidade instalada, a solidariedade e preparação coletiva», ao afetar infraestruturas elétricas e telecomunicações, o abastecimento de água e vias de comunicação, destruir edifícios (que ficaram sem cobertura e condições de habitabilidade), escolas (que ficaram sem condições de funcionamento) e provocar danos irreparáveis em equipamentos municipais, assim como em outras instituições, não escapando o Pinhal de Leiria (importante barreira natural de proteção) que sofreu um impacto devastador. Para este autarca, a resposta, dada pela Proteção Civil, pelas câmaras, juntas de freguesia, associações e cidadãos, tem de estar devidamente preparada e acompanhada por um investimento ao nível: da prevenção; inspeção técnica de infraestruturas; manutenção preventiva; planeamento; reconstrução, com projetos e soluções técnicas mais resilientes, materiais mais duradouros, assim como mais sustentáveis ambientalmente; do redimensionamento das bacias de retenção na cidade; da alteração das soluções construtivas das coberturas do parque habitacional municipal; promoção da literacia do risco junto das populações; aumento da autonomia energética com geradores; utilização da tecnologia (seja com equipamentos de drone ao serviço do reconhecimento e avaliação dos danos, seja com a aquisição de sistemas de comunicação por satélite e rede autónoma de rádio e comunicações (solução alternativa em caso de falha da rede SIRESP); aquisição de meios logísticos (como as tendas de campanha multiusos); atualização do plano municipal de emergência e proteção civil e adoção de planos de gestão interna de crises (para melhorar a coordenação e assegurar a continuidade do funcionamento dos serviços municipais essenciais). Com o saber de quem esteve no centro da tempestade e teve de lidar com os prejuízos por esta causados, para o presidente da Câmara da Marinha Grande, a tragédia “Kristin” «recordou-nos a vulnerabilidade dos nossos territórios, mas demonstrou igualmente a capacidade de superação das nossas comunidades e que os momentos de crise podem, também, ser momentos de aprendizagem e oportunidade para construirmos soluções mais robustas e sustentáveis. Se queremos territórios mais preparados, sustentáveis e seguros, temos de transformar as lições da crise em ações concretas de prevenção, adaptação e investimento. Temos de passar da gestão da emergência para uma verdadeira cultura da resiliência. A tempestade foi um teste muito difícil. Cabe-nos, por isso, garantir que o conhecimento adquirido se transforma numa oportunidade para fortalecer o território e proteger as gerações futuras», pois, ficou uma vez mais comprovado que «a prevenção custa menos do que a reparação».
A completar o painel, Andreia Rodrigues, coordenadora municipal de proteção civil da Câmara Municipal de Coimbra, apresentou uma comunicação dedicada ao tema “Fenómenos climáticos extremos – quando a prevenção sai a ganhar”, através da qual convidou os presentes a olhar para o que aconteceu na cidade dos estudantes e a analisar os fatores decisivos para tudo tenha corrido bem, num processo que também teve alguns imprevistos pelo meio, como a simultaneidade de ocorrências (explosão em prédio habitacional e o deslizamento de terras na alta da cidade) que obrigaram a dividir a atenção e os recursos da Proteção Civil. Nesta sua abordagem Andreia Rodrigues refletiu, igualmente sobre o significado e o papel da Proteção Civil na sociedade, que, «mais do que uma entidade, é uma atividade que tem um objetivo claro: proteger o cidadão e o que é do cidadão», acarretando, por isso, uma enorme responsabilidade. Referindo-se à importância do planeamento, como forma de antecipar o risco e projetar as respostas, evitando o improviso, esta responsável alertou, no entanto, para a necessidade de constante atualização dos planos, garantindo que todos saibam o que têm de fazer, seja possível mobilizar os meios adequados, adotar medidas de autoproteção e garantir que o socorro chega a todos. “Desmontar” os planos, que por vezes têm excesso de informação, e criar guidelines com procedimentos e instruções claras e sucintas, foi outra das boas práticas que facilitou a intervenção neste caso. Paralelamente, a constante monitorização do caudal do rio, a estreita articulação com a Agência Portuguesa do Ambiente e com todas as demais entidades, a criação de várias zonas de apoio à população evacuada, o levantamento prévio que permitiu agilizar rapidamente apoio alimentar e cuidados de saúde, uma decisão política informada, assim como uma estratégia de comunicação aberta e permanente, que deixou pouco ou nenhum espaço para iniciativas de desinformação, transmitindo confiança à população, fez com que o rebentamento do dique e, no seu seguimento, a derrocada da autoestrada não tivessem provocado vítimas humanas.
No debate deste painel foram colocadas questões relacionadas com os Planos de Adaptação às Alterações Climáticas, com oradores a defender que estes instrumentos deveriam ter mais desenvolvidas as questões da mitigação, por nos encontrarmos, atualmente, mais num processo de mitigação do que de prevenção, atendendo ao facto de as gerações anteriores não terem feito a prevenção necessária, e serem revistos segundo a definição de resiliência como «a capacidade que temos, o mais rapidamente possível, de repor a normalidade».
A escala de intervenção foi igualmente questionada, dado que a escala municipal nem sempre é a mais adequada, assim como a própria dimensão e capacitação das equipas de Proteção Civil, que em muitos casos, continua a ter quadros muito pequenos e pouco multidisciplinares para responder aos vários desafios que esta enfrenta. Segundo os oradores, «é sobretudo uma questão de organização, mas também de números da estrutura de recursos humanos. Não há nenhuma entidade que resolva isto sozinho. Os processos mais multinível têm de ser melhorados. Na área analítica deveríamos ter um centro analítico mais capaz e de natureza nacional e concentrada. Já em outras áreas resulta melhor se estiverem descentralizadas».
«Quando os territórios e a população não estão devidamente preparados os eventos extremos tornam-se muito mais complicados»
O tema “Risco de Incêndios” dominou as intervenções do 2.º painel, com enquadramento e moderação a cargo de António Bento Gonçalves, geógrafo e professor da Universidade do Minho, para quem o diagnóstico já está muito bem definido, urgindo avançar para as soluções.
«Falamos muito de alterações climáticas, mas esquecemo-nos de todas as outras alterações, como os desequilíbrios na ocupação do território (interior/litoral) e no uso do solo. Quando os territórios e a população não estão devidamente preparados os eventos extremos tornam-se muito mais complicados». Segundo este académico, os grandes incêndios no Pinhal de Leiria remontam a séculos anteriores, mas os mega incêndios têm uma forte tendência para aumentar. «Tendo perdido o controlo da paisagem, podemos quadruplicar os meios que não conseguiremos controlar os incêndios. Estes novos incêndios não são controláveis».
António Bento Gonçalves classificou as zonas de interface como particularmente complicadas, dado que, em muitos locais, existem urbanizações a entrar pela área de floresta e, por outro lado, o mundo rural encontra-se abandonado, o que aumenta mais o risco de incêndio.
Mas, não se pense que os incêndios urbanos são apenas um problema atual, recordando «desde Roma, passando por Tóquio e Chicago, com centenas de milhares de vítimas humanas perdidas», ou circunscrito a determinadas realidades geográficas: «não há geografia que não tenha já tido grandes incêndios urbanos», dando os exemplos do Brasil, Dubai e mais recentemente, da Suíça. Em Portugal, recordou o incêndio de 1964 no Teatro D. Maria II, de 1966 na Câmara Municipal de Lisboa e o mais mediático de todos, o incêndio do Chiado. «Mesmo com toda essa legislação nova que este último incêndio suscitou, continuamos a ter uma série de ocorrências que causam vítimas humanas». Segundo o anuário de segurança em edifícios contra incêndios de 2025, registaram-se 9 351 incêndios em edifícios urbanos no Continente. Este número tão elevado de incêndios em meio urbano dá-se sobretudo em edifícios em utilização, com os habitacionais a destacarem-se, nos meses mais frios e a horas muito específicas.
Para o professor da Universidade do Minho, «a memória do risco deveria não permitir correr os mesmos riscos», sendo necessário «tornar as catástrofes em momentos de oportunidade». «Risco zero não existe, mas podemos minorar bastante todas essas situações». Apesar deste pessimismo, considera que a sociedade tem mudado bastante no que respeita às medidas de autoproteção e à primazia dada à ciência na definição de políticas públicas. Mas, isso não bastará, carecendo de ainda maior envolvimento dos cidadãos no conhecimento dos riscos, incentivá-los a terem planos familiares de emergência devidamente implementados, campanhas de sensibilização feita pelas pessoas certas, promover a coerência das políticas, nomeadamente do solo, uma aposta mais séria na escala municipal e da freguesia e incentivar abordagens participativas e colaborativas.
Marta Alves Rodrigues, coordenadora de proteção civil do município de Torres Vedras, abordou o tema “Risco de incêndios em centros históricos – desafios, vulnerabilidades e estratégias de proteção do património urbano”. A responsável sublinhou a dualidade dos centros históricos, que assenta no facto de terem um elevado valor económico, social, patrimonial e identitário, mas também maior vulnerabilidades, decorrentes do edificado antigo, da densidade e morfologia urbana, com constrangimentos de acessibilidade para os meios de socorro, infraestruturas envelhecidas, quantidade elevada de carga combustível, população envelhecida e um fator novo, o turismo, o que torna o risco de incêndio mais provável, com risco de perda de vida, danos económicos, serviços essenciais, património histórico e identidade. A gestão integrada dos riscos existentes nesse território exige, por isso, a prevenção na linha da frente, mas também uma resposta eficaz e célere nas quatro fases da emergência, incluindo para além da primeira, a mitigação, a preparação da resposta e a recuperação e resiliência. Fazer uma correta delimitação geográfica, identificar riscos e vulnerabilidades, os serviços essenciais, verificar e manter a rede de hidrantes, ter indicadores de desempenho e a cartografia de risco atualizada, prever também o resgate e salvamento animal (nova responsabilidade da proteção civil), ter regulamentos municipais atualizados e uma fiscalização ativa são tarefas fundamentais. Para além da intervenção em espaço público, foram ainda recomendadas medidas preventivas no edificado, como a renovação da instalação elétrica ou a limpeza de chaminés, e uma forte aposta no planeamento, na promoção de uma cultura de segurança e na comunicação com a população, com ações dirigidas especificamente para os residentes, os comerciantes e os turistas. Marta Alves Rodrigues identificou, ainda, como principais desafios, a gentrificação dos centros históricos, a massificação turística, a inovação tecnológica, as limitações financeiras e as alterações climáticas.
A última intervenção deste painel coube a António Ângelo dos Santos, coordenador municipal de proteção civil do município de Aljezur, e Márcio Regino, coordenador municipal de proteção civil do município de Lagos, que falaram sobre o “Interface urbano-rural – o caso prático do incêndio de 21 de setembro de 2025, com origem no concelho Aljezur, freguesia da Bordeira”.
António Ângelo dos Santos partilhou as dificuldades sentidas pelo município de Aljezur para assegurar a sustentação logística do combate a um incêndio rural como o que aconteceu em 2025, durante os três dias de operação com cinco setores, o envolvimento de 314 veículos e 872 operacionais, mais as máquinas de rasto, aos quais foi necessário garantir o apoio logístico, uma obrigação dos serviços municipais. «Quando os meios são escassos, como acontece em municípios dos territórios de baixa densidade, como é o caso de Aljezur, onde a atividade económica também é mais limitada, dificultando o leque de prestadores de serviços aos quais o município pode recorrer, a solução é passar para a escala intermunicipal». «Houve dias em que foram servidas 1400 refeições, pelo que para satisfazer as necessidades básicas das pessoas (populações evacuadas e operacionais), foi necessário sustentar a resposta para além do limite municipal. Por isso, a mais-valia da Associação de Municípios Terras do Infante. O limite no concelho de Aljezur é muito curto, esgotando-se rapidamente».
Por isso, para o coordenador da proteção civil de Aljezur, o caminho da cooperação intermunicipal é a aposta que se deve fazer, sendo que o planeamento deve prever as necessidades específicas de cada território, mas também ter acesso ao planeamento dos municípios vizinhos. «Tem de haver partilha de informação sobre os recursos entre os municípios. Todos os serviços têm as suas bases logísticas, as quais estão dependentes da aposta que cada município faça na área da Proteção Civil». Outro dos problemas sentidos é o da mobilidade: «o serviço de apoio logístico, nomeadamente de alimentação, é feito com carrinhas que não estão aptas a circular pelos caminhos que os levam até aos vários setores operacionais. As linhas de abastecimento para a alimentação e apoio logístico são as mesmas que servem as operações de combate ao fogo. É preciso, por isso, definir rotas alternativas de abastecimento». Reforço intermunicipal, recursos partilhados e exercícios conjuntos para que a máquina esteja bem oleada, foram as soluções identificadas por António Ângelo dos Santos para os territórios de baixa densidade.
Já Márcio Regino apresentou um retrato bem diferente no que respeita à capacidade logística instalada, explicando que neste incêndio Aljezur tratou das questões logísticas da frente norte e Lagos ocupou-se da frente sul, tendo sido instalada uma base de apoio logístico na aldeia de Barão de São João. «Tivemos de fazer centenas de evacuações, mas, através na cantina municipal rapidamente conseguimos disponibilizar 200 a 300 refeições». Para o sucesso da resposta, que neste caso se mediu pelo registo de zero vítimas e zero perda de bens patrimoniais, indicou o planeamento prévio, que torna mais fácil a resposta, as ações regulares de silvicultura preventiva, a verificação acessos no interface urbano-rural, a existência de uma base de apoio logística com consumíveis para a primeira intervenção, a sensibilização e informação pública para a questão dos riscos e o reforço dos mecanismos de coordenação e colaboração institucional com várias entidades com atividade no território. Márcio Regino elogiou o trabalho desenvolvido no âmbito do programa “Aldeias Segura, Pessoas Seguras”, nos nove aglomerados habitacionais envolvidos, o qual inclui visitas porta-a-porta, envolvendo o oficial de ligação, ações para rotinar os caminhos de evacuação e o conhecimento dos pontos de encontro. O facto de o oficial de Barão de São João conhecer muito bem o território e ser alguém também muito conhecido da população fez toda a diferença nesta situação do fogo de 2025, cuja maior parte da área ardida (65%) foi no concelho de Lagos. O coordenador da proteção civil salientou, ainda, a utilização de uma plataforma onde são cartografadas todas as habitações isoladas e a caracterização do agregado familiar que habita em cada uma das habitações, o que facilita a decisão em matéria de evacuações e a coordenação com as forças de segurança que auxiliam estas operações. Uma comunidade bastante resiliente, com a população a demonstrar vontade de ajudar, designadamente em donativos e géneros alimentares, são incentivos que fazem, também, a diferença, contribuindo para o ânimo de todos aqueles que estão no teatro de operações.
Num debate vivo, foram colocadas questões sobre o uso do solo e o edificado ilegal, informação que é da máxima importância para a Proteção Civil, sobre o risco inerente aos novos parques e células fotovoltaicas, o que obriga a uma comunicação direta com as entidades gestoras, assim como sobre os desafios da comunicação nos centros históricos marcados pela gentrificação, população envelhecida e presença de comunidades migrantes com diferentes idiomas.
«É necessário uma estrutura de resposta àquilo que são os riscos de média capacidade, para quando vier um sismo de maior escala estarmos mais bem preparados»
O último painel dos trabalhos foi dedicado ao “Risco Sísmico e de Tsunamis” com enquadramento e moderação feita por Carlos Sousa Oliveira, professor catedrático jubilado do Instituto Superior Técnico, que discorreu sobre o tema “O que nos ensinam os sismos recentes”. Os sismos geram fenómenos em cascata/dominó, uma vez que os danos por estes provocados, por sua vez provocam outras perdas, como aconteceu recentemente na Venezuela. Acrescentando que nem todos os sismos com epicentro no mar dão origem a tsunamis, Carlos Oliveira sublinhou o impacto dos sismos, avaliado em cerca de 25% do PIB das áreas afetadas, sendo legítimo questionar o que está a ser feito para prevenir o risco sísmico em Portugal. «Já existem muitos estudos, mas falha a implementação. Só com ciclos políticos alargados, num horizonte de 30, 40 ou 50 anos, será possível alterar e fazer cumprir a regulamentação necessária em termos de edificação». O moderador não resistiu, por isso, a dar alguns exemplos sobre o que já está a ser feito ou pode ser melhorado, apontando os sistemas de alerta precoce, que permitem antever a ocorrência das vibrações em 10 a 30 segundos e, no caso dos tsunamis, em 10 a 30 minutos a chegada das ondas, ou se o Hospital Central do Algarve que vai ser construído já terá sistemas de amortecimento das ondas sísmicas, à semelhança dos exemplos de referência ao nível da engenharia e construção antissísmica em Portugal como o Hospital da Luz (Lisboa), o novo Hospital de Todos-os-Santos (Hospital de Lisboa Oriental) e o Laboratório Regional de Engenharia Civil (LREC) construído em Angra do Heroísmo, concluindo que «é necessário termos uma estrutura de resposta àquilo que são os riscos de média capacidade, para que quando vier um sismo de maior escala, estarmos mais bem preparados».
André Fernandes, coordenador municipal de proteção civil do município de Lisboa, apresentou o “Sistema de Risco e Alerta de Tsunamis no Estuário do Tejo” que começou por ser implementado no concelho de Lisboa e foi alargado aos municípios de Oeiras e Cascais. Este trabalho começa com a elaboração de cartas de inundação, instrumentos que projetam as áreas inundáveis em caso de ocorrência de tsunami. «Entre 35 a 45 minutos será o tempo máximo da chegada das ondas, sendo por isso o intervalo de oportunidade para implementar as medidas de autossalvamento definidas». O sistema envolve a instalação de torres com sirenes de alerta e sinalética que identifica as rotas de evacuação, assim como os pontos de encontro seguros. São, igualmente, identificados os edifícios que têm condições de resistir ao sismo e que podem ser locais de evacuação vertical. Um trabalho acompanhado de ações de comunicação e exercícios de evacuação envolvendo um número expressivo de participantes.
Sobre o mesmo âmbito de atuação falou Paulo Santos, coordenador municipal de proteção civil do município de Loulé, apresentando o projeto que tem estado a ser implementado neste concelho algarvio, designadamente nas freguesias de Quarteira e Almancil, conforme previsto na Estratégia Nacional para uma Proteção Civil Preventiva 2030 (Estratégia 2030) que, tendo como objetivo mudar o paradigma de uma gestão centrada nas consequências para uma gestão integrada e preventiva dos riscos, atribui aos municípios a responsabilidade de instalar sinalização uniformizada de vias de evacuação face ao risco de tsunami e respetivos pontos de encontro. Complementarmente, a Proteção Civil de Loulé criou uma aplicação móvel através da qual disponibiliza informação sobre as rotas de evacuação georreferenciadas. Inquéritos à população, sessões públicas de informação e exercícios de evacuação são outras das ações integradas no âmbito do projeto CoastWAVE 2.0., o qual mereceu, em 2025, a certificação “Tsunami Ready”, uma chancela atribuída pela UNESCO que, na prática, significa o reconhecimento internacional das comunidades costeiras que investem na sua preparação e capacidade de resposta a tsunamis. Neste âmbito foi, ainda, destacada a necessidade de se estabelecer uma interligação muito próxima com os serviços sociais com vista ao mapeamento de pessoas com mobilidade reduzida e pessoas idosas isoladas a residir em zonas vulneráveis, ou seja, inundáveis, algo que tem sido feito também com o apoio do projeto RADAR.
Pedro Almeida e Márcio Regino, do Corpo de Bombeiros de Lagos, apresentaram, por sua vez, o trabalho desenvolvido no âmbito do Grupo de Salvamentos Especiais (GSE), o qual está preparado para fazer resgate em arribas, no mar e em cenários de cheias urbanas, acidentes graves, estruturas colapsadas, teatros de operações com matérias perigosas e com recurso a salvamento por cordas, tendo ao seu serviço a mais recente tecnologia de drones e georadar, mas também equipas K9 com dois canídeos certificados para atuar em grandes áreas e em cenários com escombros. Uma perícia que requer treino contínuo: «Treinamos continuamente, como se a nossa vida dependesse disso, num formato o mais próximo possível da realidade”.
“O desastre não escolhe calendário. A prontidão sim.” Prontidão que é importante não apenas para proteger os cidadãos e os seus bens durante as tragédias, mas também para os acolher e apoiar durante o processo de recuperação.
«A cultura de risco e a resiliência são fatores competitivos dos territórios»
Em jeito de conclusão, Mónica Ferreira mostrou-se satisfeita por ter sido possível reunir entidades e pessoas que são essenciais na resposta a calamidades, mas também na prevenção. Reconhecendo que já existe muito conhecimento científico desenvolvido, admitiu que é preciso disseminar melhor esse conhecimento, não só nas universidades, mas também junto dos técnicos e dos decisores políticos. A presidente do CERU identificou, ainda, a insuficiência de peritos em avaliação de danos. Defendendo uma aposta reforçada na literacia do risco, deu como exemplo de boa prática o projeto Treme-Treme, um jogo educativo português desenvolvido para ensinar crianças e jovens sobre o risco sísmico e de tsunamis de forma lúdica, acrescentando que é necessário fazer mais, incluindo o tema nos currículos escolares.
Coube a Paulo Jorge Reis, vice-presidente da Câmara Municipal de Lagos, encerrar os trabalhos, não sem antes dar nota da evolução ocorrida na opinião pública relativamente a esta temática. A esse propósito recordou as reações negativas registadas até pela própria comunicação social aquando da primeira sinalética sobre o risco de tsunamis instalada pela Câmara Municipal de Lagos, assim como o receio manifestado por algumas entidades de que essa informação pudesse ter impacto negativo no turismo. Atualmente a cultura de risco e a resiliência são encaradas como fatores competitivos dos destinos. O autarca também chamou a atenção para o facto de municípios com orçamentos mais reduzidos não conseguirem investir, como gostariam, na área da Proteção Civil, o que acaba por originais assimetrias no território.

